Fachada

Exposição Individual
Galeria Silvia Cintra + Box 4, Rio de Janeiro, Brasil, 2014

FACHADA OVERVIEW 01

FACHADA OVERVIEW 02

LE CORBUSIER 1936
Fachada, video instalação, 3min, loop, 2014
LE CORBUSIER 1936 03
Le Corbusier 1936, bronze fundido, aprox.4cm X 180cm, 2014
THESE TIMES 03
Esses Tempos (MEC/D.N.E. 1937-1957), silkscreen em plywood, aprox.245cm X 190cm, 2014
DISPOSITIVO 03 01Fachada, Dispositivo 03 & 01, 100cm X 60cm cada. Monotipia / Madeira, Plywood, Vidro & Silkscreen, 2014
DISPOSITIVO 13 DIPTICO
Fachada, Dispositivo 13, diptico. 100cm X 60cm X 2. Monotipia / Madeira, Plywood, Vidro & Silkscreen, 2014

Fachada, video projetado sobre tela de plexiglass, 3min, loop, 2014

A exposição Fachada, toma como ponto de partida um marco da arquitetura moderna Brasileira: o Palácio Gustavo Capanema, onde funcionou o Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. Construído entre 1936 e 1945, ele foi projetado por uma equipe de arquitetos, entre os quais Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos e Jorge Machado Moreira com a consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. O edifício também teve a colaboração de artistas plásticos, que criaram obras para as áreas internas e externas. Paradoxalmente, no entanto, estes arquitetos e artistas de esquerda conceberam o edifício durante o regime de Getúlio Vargas (1930-1945), que estabelece o Estado Novo em 1937, inicialmente de inclinação fascista. Assim, o edifício incorpora uma contradição: a arquitetura representava um sistema baseado em valores democráticos e ao mesmo tempo também correspondia à visão de nação moderna do regime.

A exposição Fachada conta com quatro elementos principais: uma frase fundida em bronze, um filme, um conjunto de dispositivos para parede e a imagem ampliada de um cartão postal dos anos 50. O filme da fachada do edifício é a chave para a leitura da instalação. Numa única tomada, a câmera viaja em linha vertical que vai do térreo ao terraço do edifício e o ultrapassa, revelando a cidade, o mar e o horizonte. Nesta cena pode-se ver como o funcionalismo de Le Corbusier agrega elementos locais, desde os materiais de acabamento até o projeto paisagístico com a utilização de plantas tropicais. As janelas transparentes permitem acesso visual aos espaços internos, enquanto o surgimento repentino de uma tela de proteção azul na fachada significa sua renovação atual.

Em colaboração com o arquiteto da exposição Birger Lipinski, Redondo criou dispositivos para parede que lembram o conjunto de janelas da fachada do edifício. Desta maneira, as qualidades estruturais da arquitetura do Palácio Capanema também se expressam na articulação formal de sua obra. Esta estrutura de madeira exibe serigrafias em painéis de plywood, que retratam uma seleção de fotografias atuais do edifício tiradas pelo próprio artista. Redondo justapõe vários detalhes visuais do lugar, inclusive os bustos de Vargas e Capanema, painéis de Cândido Portinari, a bandeira Brasileira, dentre outras imagens e espaços que dialogam com a complexa história e iconografia do edifício. O efeito de collage gerado por estes fragmentos, por conta da sua colocação e disposição, evoca o legado contraditório de como ideologias distintas vieram a se manifestar neste mesmo espaço físico. Revisitando a história do edifício (que inclui a Política de boa vizinhança entre os Estados Unidos e o Brasil nos anos 40), Redondo também nos convida a pensar sobre a atual expansão econômica do Brasil e sua visibilidade global cada vez maior.

A exposição também trata de como o Palácio Capanema foi originalmente sede do Ministério da Educação e Saúde, cujo programa político tinha por premissa o desenvolvimento de uma nação moderna e “saudável”. Como um comentário a esta história, Redondo imprimiu e ampliou a imagem emblemática de um cartão postal da época, onde um atleta posa na frente do edifício. Ao invés de uma reprodução fiel, o artista fragmentou a imagem em vários painéis de plywood, que também remetem aos formatos e tamanhos de cartazes de manifestações. A demonstração de força heroica do desenho original lembra a importância que se dava aos esportes quando da criação de um Brasil moderno. Mas tal simbolismo e forma também tem influência sobre o presente: eventos esportivos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos têm grande impacto sobre o atual desenvolvimento socioeconômico da cidade, provocando manifestações por parte da população.

Finalmente, na parede de fundo da galeria encontra-se a frase fundida em bronze Na verdade, a cidade do Rio não existe ainda, que foi tirada de um esboço feito por Le Corbusier durante sua viagem ao Rio em 1936. A frase acena o quanto o Modernismo era percebido como uma solução radical para o desenvolvimento sem, no entanto, levar em consideração as realidades locais. Ainda assim, como no caso da imagem do atleta heroico do outro lado da galeria, também se pode ler as palavras de Le Corbusier em relação ao momento atual e à propulsão da cidade para o futuro. Ao sobrepor diferentes temporalidades e vários elementos, todos reunidos neste marco da arquitetura, a obra de Redondo reativa uma visão sobre a história da política. Ao fazê-lo, ele cria um espaço onde o espectador pode avaliar a complexidade da memória histórica e suas ambiguidades a partir de diferentes perspectivas. Fachada sugere o contexto histórico múltiplo da construção do Palácio Capanema e os possíveis significados dessa fachada nos dias de hoje.


Video:
Camera: Gabriel Klabin / Edição: Daniel Frony
Fotos:
Mario Grisolli