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laercio redondo has the shrewdness of ulysses / laurent deveze
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laercio redondo is as cunning as ulysses. he possesses the type of intelligence once qualified as “metis” that manages to stand up against the cruellest of conspiracies or the most untameable of powers, thanks to clever manipulation and numerous tricks.

ulysses did resort to crafty tricks on two famous occasions: when he succeeded in fooling the one-eyed giant, son of poseidon, polyphemus, who replied to his father : “no-one poked me in the eye” and of course with the trojan horse, a fake ex-voto stranded on a beach, that caused the fall of a kingdom lost by its gullibility.

throughout his travels, ulysses’ goal was unique: to draw the line around myths and fables and declare the victory of human times over the past era of semi-gods.ulysses signalled the possible victory of humanity.

“no-one” is indeed what is at stake in redondo’s work, here clearly based on felix gonzales torres, of cuban fame. but when his quest takes the turn of a trojan enquiry about torres’s past, it finally fizzles out as such, to concentrate on itself, just as the odyssey did. it does not really matter if not so many tangible traces of torres’s stay in la havana are found.
after all, this is not the point for laercio redondo, who is not obsessed, as a biographer would be, by details of torres’ caribbean life. his interest lies in the search itself. how officials and passers-by should react to the investigation: would they spontaneously accept him as a revolutionary icon or be faced with a ghost-like figure better left untouched?
as for the dancer shown in the video: is he double? twin-like? or simply schizophrenic? iconic of the unsustainable position inside/outside a forever indispensable yet despicable market.

as for this real/fake solar compass, which south does it point to?
is it a south seen from a western world still unable to give up on revolting past slave trades or protecting itself, in a last suicidal and paranoiac gesture, from an immigration on which it thrives?
or is it pointing towards another dreamlike south, on an infinite quest shared alike by the three wise men and artists searching for meaning and truth?

in any case, laercio’s portray of torres’ la havana is not a geographical one. the action takes place in la havana but just as well, it could be located “no-where”. like alfred jarry’s “no-where” in poland, which eventually amounts to a universal “anywhere” for ubu.

laercio displays recognition processes, hidden agendas and the dual identities of a cuban world torn between its feisty spirit and its wariness towards a capitalism which persistently pursues its crunching process. he is this smart artist who found a way to abide by exhibition rules so as to nevertheless give away his work for free but despite his efforts became a “good bet” for art dealers.

redondo’s work is blatantly political, through the skirting strategy he relentlessly puts in place for us. when he follows “to the letter” greek colonels’ school textbooks he does so by extracting from simple friendship gestures a latent urge into the limits of desire. When he shows us the leftovers of a wedding cake, it is for us to read in it the irreparable wear and tear time inflicts to relationships that were to be eternal in the name of god, with the whole world and the state as witnesses. redondo’s butter cream, discarded by disgusted guests, smacks of foucault, in the way it indirectly questions how the law intervenes in our emotional and physical businesses, how the state creeps into our most intimate gardens.

more than any other artist, laercio has understood that the only way to overcome multifaceted  and ever-changing enemies that constantly alter their appearances, just like the monsters met by homer’s ulysses, is to use the power of mixing. which is a cunning art, a delicate strategy, where one must be especially careful not to mingle in any way with the enemy. the violence of oppressive regimes lies in their ability to merge into one those with a revolutionary mind and those obsessed with order, terrorists and petty kings.

condemned to nomadism and evasion, the artist becomes like nietzsche’s acrobat who is not allowed any poseur step or fake movement for fear of falling and is condemned to endless fighting against time, in which all is eventually engulfed and against a market now become global.

laercio gracefully dances through his art, but behind his apparent fragility lies the strength of old brazil captured by a “greek” whose step can, in a flash, turn into a leap borrowed from the capoera dancer/fighter, capable of crushing into a pulp any imprudent opponent.

as if one day guantanamera led to ithaca…

stockholm, sweden 2007



laercio redondo tem a argúcia de ulisses / laurent deveze

essa qualidade de inteligência que os antigos chamavam de metis e que, por meio de engenhosas manipulações e uma série de truques, consegue livrar-se das mais cruéis conspirações, dos poderes aparentemente mais indomáveis.

de ulisses, talvez lembremos de dois ardis principais: a primeira, pela qual consegue subjugar o gigante polifemo, ciclope, filho de poseidon, que, ao pai, responderá: “quem me cegou chama-se ninguém”. 
e enfim, a do cavalo de tróia, falso ex-voto que, abandonado numa praia, selará a perda de um reino demasiadamente crédulo.
ora, de ilíada em odisséia, a meta de ulysses é uma só: delimitar os contornos da fábula e do mito e anunciar a vitória do tempo humano sobre o antigo tempo dos semideuses.
ulisses é a possível vitória do humano.

pois bem, fala-se de “ninguém” neste trabalho sobre felix gonzales torres, já que, efetivamente, é dele que se trata em cuba.
mas o resgate do passado do artista atrás do qual se abriga laercio para esta procura, como dentro de um verdadeiro cavalo de tróia, só se justifica afinal, assim como a odisséia, em si mesmo e pouco importa se esse resgate só permite encontrar pouquíssimas marcas tangíveis da passagem do artista cubano no solo de havana.
aliás, esta não é a questão, pois para o nosso criador, pouco importa descobrir, como o faria um biógrafo, detalhes caribenhos da vida de torres; o que importa, é a própria pesquisa, a forma como vão reagir tanto autoridades como homens comuns, sentindo-se ou não instigados por esta busca.
estaremos contribuindo para criar um ícone prestes a integrar algum panteão revolucionário? ou para ressuscitar um fantasma que teria sido preferível deixar preso no esquecimento?
quanto ao dançarino deste vídeo, será ele duplo, geminado ou simplesmente esquizofrênico? artista duplo do “dentro-fora” do mercado que o faz existir até quando o combate.

e essa falsa-verdadeira bússola solar, qual é o sul que ele indica afinal?
o de um ocidente que está sempre tocando o comércio do infame tráfico dos negros ou que, suicida e paranóico, se protege de uma imigração que, no entanto, o constitui?
ou será que indica aquele sul tão sonhado da busca suprema: a própria busca dos grandes reis magos e dos artistas à procura de sentido e de verdade?
seja como for, para laercio, a havana de gonzales torres talvez não seja geográfica, a ação situa-se efetivamente em havana, mas, com uma precisão talvez: “isto é, em lugar nenhum”.
este lugar nenhum da polônia de jarry que permite denunciar ubu em todos os lugares do universal.
“lugar nenhum” é o lugar ideal para evocar “ninguém” precisamente, isto é, revelar-nos todos.
laércio atualiza os mecanismos de reconhecimento, a face oculta das leis do mercado, a dupla identidade de uma cuba ao mesmo tempo combatente e invejosa do capitalismo que ainda a está esmagando, como o artista astuto que buscava o meio de fingir as leis da exposição para melhor distribuir de graça o seu trabalho aos visitantes e que, sejam quais forem suas lutas, tornou-se um “valor seguro” para os marchands.

eminentemente política, a obra de redondo o é pela estratégia de contornamento à qual está sempre nos convidando: tomar os manuais escolares dos coronéis gregos “ao pé da letra” e levar o gesto da amizade até os limites do seu desejo ou ainda ler nos restos de um bolo de casamento o irremediável desgaste que o tempo inflige às relações, apesar de elas serem proclamadas eternas perante deus e o mundo e, sobretudo, perante o estado que as institui.
tem um quê de foucault nesse creme de chantilly abandonado pelos convidados enjoados, nessa intervenção hoje tão pouco questionada da lei nos nossos assuntos particulares, da intromissão do estado na esfera da nossa própria intimidade.

laercio, mais do que outro artista, entendeu que o confronto com um inimigo polimorfo e instável, suscetível de mutação por meio de contínuas e engenhosas metamorfoses, assim como os monstros com quem ulysses se deparava em homero, só pode ser destruído pela métis.
arte da manha, da estratégia, que vai se engajar com o maior cuidado para evitar qualquer familiaridade de sentido ou de ações com o tirano que se está combatendo.
tentar sair da homogeneidade da opressão que acaba, na sua violência, confundindo revolucionário e guardiões da ordem, terroristas e reizinhos, como que por contaminação.
condenado à odisséia, isto é, ao nomadismo e à esquiva, o artista torna-se o equilibrista de nietzsche, aquele que, no seu fio, impede qualquer postura fingida, qualquer pose inspirada. sem nunca descansar deste combate contra um tempo que traga tudo e um mercado que regula todo o planeta.

laercio, na sua obra, dança com graça e não sem uma aparente fragilidade, mas não se engane: este “grego” traz consigo um brasil ancestral e seu passo pode tornar-se, num átimo, o jeté do dançarino-lutador de capoeira que faz picadinho de qualquer adversário imprudente.

como se, qualquer dia desses, guantanamera  encontrasse itaca…

estocolmo, suécia 2007



laercio redondo a la ruse d’ulysse / laurent deveze

cette qualité d’intelligence que les anciens appelaient "métis" et qui, par de savantes manipulations et beaucoup d’astuces, arrive à déjouer les conspirations les plus cruelles, les pouvoirs apparemment les plus indomptables.

d’ulysse on se rappellera peut être deux ruses majeures:
celle par laquelle il se rend maître du géant polyphème, cyclope, fils de poséidon, qui, à son père, répondra : "celui qui m’a crevé l’œil a pour nom personne". 
et enfin, celle du cheval de troie, faux ex-voto, qui, abandonné sur une plage, signera la perte d’un royaume trop crédule.
or d’iliade en odyssée,  ulysse n’a qu’un but : délimiter les contours de la fable et du mythe et annoncer la victoire du temps humain sur l’antique temps des demi-dieux.
ulysse c’est la possible victoire de l’humain.

or, de "personne" il en est question dans ce travail autour de felix gonzales torres puisque c’est bien de lui dont il s’agit à cuba.
mais la recherche du passé de  l’artiste derrière lequel s’abrite laercio pour cette quête, comme en un véritable cheval de troie,  ne se justifie finalement, telle l’odyssée, que par elle-même et peu importe si l’on ne découvre dans cette recherche  que bien peu de traces tangibles du passage de l’artiste cubain  sur le sol de la havane.
telle d’ailleurs n’est pas la question car pour notre créateur il importe assez peu de découvrir à la manière d’un biographe des détails caraïbes de la vie de torres;  ce qui compte, c’est l’enquête elle-même, la façon dont officiels ou hommes de la rue vont réagir, se sentir ou non interpellés par cette recherche.
va t on contribuer à créer une icône toute prête à intégrer quelque panthéon révolutionnaire? ou ressusciter un spectre que l’on aurait préféré laisser prisonnier dans l’oubli?
quant au danseur dans cette vidéo, est il double, gémellaire ou simplement schizophrène? artiste double du "dedans-dehors" du marché qui le fait être même quand il le combat.

et cette fausse-vraie boussole solaire quel sud indique t elle donc?
celui d’un occident qui n’en finit pas de rejouer le commerce de l’infâme traite des noirs ou qui se protège, suicidaire et paranoïaque, d’une immigration qui le constitue pourtant? 
ou indique t elle ce sud rêvé de la quête suprême celle là même des grands rois mages et des artistes en recherche de sens et de vérité?
quoi qu’il en soit, pour laercio, la havane de gonzales torres n’est peut être pas géographique, l’action se situe bien à la havane mais précisons peut être: "c’est à dire  nulle part".
ce nulle part de la pologne de jarry qui permet de dénoncer ubu partout  dans l’universel.
"nulle part" c’est le lieu idéal pour évoquer "personne" justement c’est à dire nous révéler tous.
laercio met à jour les mécanismes de reconnaissance, les faces cachées des  lois du marché, la double identité d’un cuba à la fois combattant et envieux du capitalisme qui le broie encore comme l’artiste astucieux qui cherchait le moyen de feindre les lois de l’exposition pour mieux distribuer gratuitement son travail aux visiteurs et qui quelles que soient ses luttes est devenue une "valeur sûre" pour les marchands.

eminemment politique l’œuvre de redondo l’est par cette stratégie de contournement à laquelle il nous invite en permanence: prendre les manuels scolaires des colonels grecs "aux mots" et poursuivre le geste de l’amitié jusqu ‘aux limites de son désir ou bien lire dans les restes d’un gâteau de mariage l’irrémédiable usure que le  temps inflige à  des relations qu’on proclame pourtant éternelles à la face de dieu et du monde et surtout de l’etat qui les institue.
il y a du foucault dans cette crème au beurre abandonnée par des convives écœurés, dans cette intervention si peu questionnée aujourd’hui de la loi dans nos affaires de cœur et de corps, de l’immixtion de l’etat dans la sphère de notre intimité même.

laercio, plus qu’un autre artiste, a compris que la confrontation avec un ennemi polymorphe et changeant, susceptible de se muer par de continuelles et savantes métamorphoses,  tels les monstres que croisait ulysse en homère, n’est destructible que par la "métis".
art de la ruse, de la stratégie, qui va s’engager en prenant bien garde d’éviter toute familiarité de sens ou d’actions d’avec le tyran qu’on combat.
tenter de sortir de l’homogénéité de l’oppression qui finit dans sa violence par confondre révolutionnaire et gardiens de l’ordre, terroristes et roitelets comme par contamination.
condamné à l’odyssée, c’est à dire au nomadisme et à l’esquive, l’artiste devient l’acrobate de nietzsche, celui qui, sur son fil, interdit toute posture feinte, toute pause inspirée. jamais en repos dans ce combat contre un temps qui engloutit tout et un marché qui règle la planète entière.

laercio danse dans son oeuvre avec grâce et non sans une apparente fragilité mais ne vous y trompez pas il y a du brésil ancestral dans ce "grec" là et son pas peut devenir en un éclair le jeté du danseur-lutteur de capoeira qui réduit en bouillie tout adversaire imprudent.

comme  si un de ces jours guantanamera rejoignait ithaque…

stockholm, suéde 2007

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